GESTÃO & SOCIEDADE
 Corrupção gera corrupção Por Tatiana Martins Alméri *
"(...) infelizmente a gente enxerga o governo (administração pública) como um 'cabide' que quem sabe, se tivermos sorte, um dia nos penduraremos"
Dentre os inúmeros significados do verbo administrar, discutidos atualmente, o mais evidente e comumente usado é: ato de gerir e dirigir negócios. Dentro desse significado fica explícita, no dia-a-dia da população brasileira, e no almejo dos cidadãos, a administração privada.
Dentro do pensamento privado, no topo da hierarquia, está o gerenciamento de uma empresa multinacional, ou até mesmo uma transnacional. Isso ocorre por um grande motivo de transformação de valores, crenças e da moral social. Você já pensou o porquê que quando falamos em administrar algo não "vem", em um primeiro momento, à nossa cabeça dirigir os negócios públicos? Gerir, na sua definição em português não necessariamente precisa ser privado, porém, o patamar público está fora do viés de pensamento da nossa sociedade.
Isso ocorre, pois o setor público é visto atualmente como uma "teta de vaca gorda" - expressão popular - na qual o leite nunca acaba, vem aos poucos, mas durará pela vida toda. Pois é, infelizmente a gente enxerga o governo (administração pública) como um "cabide" que quem sabe, se tivermos sorte, um dia nos penduraremos. Pensamos em público no sentido de conseguirmos um emprego, por meio de um concurso público, para que possamos ter a garantia dele (do emprego), até que provem o contrário, para o resto da vida, sem ter de estar SEMPRE dentro da linha e da cultura de uma organização privada, a qual, logicamente, possui suas regras e rigidez naturais de uma organização com parâmetros e metas a cumprir.
O público? Ah, ele é muito mais ligth... É lógico que estou generalizando, existem SIM pessoas que não pensam assim, GRAÇAS!!! Mas o que acontece ultimamente são as trocas de valores sociais; o público não é visto como algo idôneo, adequado e correto. Não confia-se mais nos parâmetros do público, pois é nele que ocorrem as grandes corrupções da sociedade. Mas quem não gostaria de conseguir um emprego público?
Agora eu te pergunto, voltando mais para os políticos: esses políticos - que representam o setor público de poder - possuem valores corruptos (não são necessariamente todos) ao chegar ao poder porque trouxeram esses valores de algum lugar, ou será que pisando em um cargo público de representação popular instantaneamente a pessoa adquire esses tipos de valores ilegais? É um pouco difícil excluir a nossa cultura e achar que esses atos não estão presentes na formação de valores sociais.
O nosso cotidiano, mais uma vez generalizando, é corrupto; o troco que recebemos a mais e não devolvemos, a compra de CDs piratas, o uso de um software copiados, o plágio em revistas e em trabalhos de conclusão de curso, a fila do banco que "cortamos" e inúmeros atos que fazemos em nosso cotidiano. Isso tudo é estar fora das regras sociais, portanto é ser corrupto, sejam elas leis concretizadas em forma da constituição ou leis culturais das relações sociais.
O grande problema aí é a proporção: não devolver o troco errado poderia representar 0,5% do meu salário, mas roubar milhões dos cofres públicos também seria 0,5% do montante de dinheiro dos contribuintes da população brasileira. Será mesmo que só eles possuem esses valores de corromper regras em busca de ganhos financeiros? Ou será que a nossa sociedade está tendendo a esses atos? Torço para que a resposta dessa última pergunta seja negativa, mas isso, só o tempo dirá
* Tatiana Martins Alméri é socióloga, formada pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, mestre em Sociologia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP e integrante do corpo docente da Universidade Paulista - Unip e da Faculdade de Tecnologia de São Paulo - FATEC. (taalmeri2@hotmail.com)
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