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Nas alturas


Piloto de asa delta utiliza vôo livre como metáfora para o mundo dos negócios


O que um vôo livre tem a ver com o universo corporativo? À primeira vista, nada. Mas o docente de Marketing e Negociação nos cursos de MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV), palestrante e diretor da Megafly, empresa que atua no setor de turismo de aventura na cidade do Rio de Janeiro, Glauco Cavalcanti, prova que as duas coisas podem caminhar juntas.

Piloto profissional de asa delta há 14 anos, há cinco ele idealizou a palestra "Decolando para o Futuro", onde combina sua experiência como alto executivo de grandes empresas - como a Coca Cola Company, onde foi gerente de desenvolvimento de mercado, - com suas conquistas como atleta de asa delta. O objetivo é levar as pessoas a pensarem suas carreiras ou evoluírem em seus negócios com uma visão dinâmica e interativa. "A palestra conquista o público que decola comigo nesta jornada. Normalmente, os executivos querem fazer um vôo duplo ao final da palestra", conta. A palestra já passou por empresas como Johnson & Johnson, Fundação Carlos Chagas, Intelig, Unimed, entre outras.

Dentro do paralelo que traça entre empreendedorimo e vôos livres, ele relata que o lançamento de um produto, a abertura de uma nova empresa ou o surgimento de um projeto relevante são momentos especiais, onde a impressão é de que se está "decolando". Em suas explanações, o atleta alega que o empreendedor tem o futuro de cada projeto que realiza em suas mãos, por isso, a importância de saber lidar com as incertezas do mercado, os ventos laterais, as mudanças repentinas e a gestão do risco. Por outro lado, segundo ele, as intempéries dão mais ânimo, energia e vontade de continuar empreendendo porque, ao final, com planejamento, é possível "voar" longe, assim como em suas aventuras pelo céu.

Este perfil otimista de profissional, que acredita e compreende os riscos e está disposto a aceitá-los de forma equilibrada, é diferente de um otimista ingênuo, que se lança no mercado de forma impulsiva. Neste sentido, Cavalcanti sempre buscou novas formas de compreender o mundo dos negócios e as pessoas que estão inseridas neste jogo. "Sou um curioso por natureza e esta curiosidade incessante me levou a dedicar-me aos estudos", declara.

Nas alturas

O último feito do atleta/empresário foi alcançado em novembro 2008, quando entrou para o seleto time de pilotos de vôo livre que já percorreu uma distância acima dos 300 quilômetros. Durante a competição XCeará, maior evento nacional da modalidade, realizada na cidade de Quixadá-CE, o atleta, professor universitário e empresário Glauco Cavalcanti ficou em segundo lugar ao voar da cidade até Juazeiro, no Piauí, no período de seis horas e dez minutos, distância que equivale a decolar do Aeroporto de Galeão, no Rio de Janeiro, ao de Guarulhos, em São Paulo.

Sua experiência contribui para que tudo dê certo. Afinal, são mais de cinco mil saltos, marca digna de um campeão. Tanto nos negócios, quanto na vida.

Incertezas

A formação de Cavalcanti em Administração de Empresas pela PUC do Rio de Janeiro - o atleta também é pós-graduado em Marketing pela Fundação Getulio Vargas e mestre em Gestão Empresarial pela mesma instituição, - o proporcionou uma dose de certezas. Na época da graduação, trabalhava em uma multinacional norte-americana no setor de bebidas. Sua lógica era racional e os estudos o embasaram para que pudesse tomar melhores decisões. Era, na ocasião, um jovem executivo disposto a encarar decolagens difíceis, aceitar projetos audaciosos e se dedicar de corpo e alma aos novos desafios que surgiam.

Já na época do MBA em Marketing, sentia-se imbatível, já que o curso o "equipou" com as últimas técnicas gerenciais de que precisava. "Tinha apenas certezas em minha mente. Não havia espaço para dúvidas ou questionamentos", considera. Entretanto, foi no mestrado que ele se aprofundou nas questões mais complexas do processo decisório, na compreensão das organizações e passou, então, a entendeu melhor o fenômeno do empreendedorismo.

Glauco Cavalcanti: A união vôo livre e empreendedorismo resulta em observações concretas das atividades profissionais

Enquanto a gradua ção lhe trouxe certezas, o mestrado "destruiu" toda a sua falsa base sólida e criou o hábito de questionar, de olhar por outro ângulo e ver que existem diversas abordagens para o mesmo problema. E mais, que as abordagens normalmente não são excludentes, e sim, complementares. "Saí do mestrado com mais dúvidas do que certezas e tendo Sócrates como meu mais novo amigo ,'sei que nada sei'", diverte-se.

A partir disso, sentiu que precisava de um laboratório para testar suas teorias, avaliar seus experimentos e comprovar as supostas verdades. Foi então que encontrou todas as respostas no vôo livre. "Busquei um laboratório complexo o suficiente para considerar múltiplas variáveis, afinal, o mundo dos negócios é afetado por inúmeros elementos. Queria um campo de prova que pudesse colocar os empreendedores em situações adversas e que o processo decisório fosse testado em suas últimas conseqüên cias", relata.

Hoje em dia, apesar de ser um piloto de asa delta, micro-empresário, professor universitário e palestrante, prefere se considerar um cientista do ar, um eterno aprendiz que observa atentamente a natureza em busca de respostas para questões empresariais práticas.

No entanto, descobriu que parte dessas questões é explicada pela razão, parte pela emoção e outras tantas pela energia divina presente na natureza. Portanto, a palestra "Decolando para o Futuro" é um apanhado de tudo aquilo que já vivenciou dentro das empresas, nas salas de aula e "pendurado" em sua asa delta, como costumar dizer.

zoom

Inovação

Diante dos desafios que Glauco Cavalcanti enfrenta nos vôos livres que realiza, foi inevitável o uso de algumas ferramentas como GPS, por exemplo. A inovação fica por conta da utilização destas tecnologias nas palestras que ministra nas empresas. O abusa dos recursos audiovisuais, como vídeos e o CompGPS, um programa que lê os GPSs usados por pilotos de competição de asa delta.

O propósito é fazer com que os espectadores entendam suas estratégias de vôo e fazer um paralelo com a experiência empresarial. O software permite ainda a simulação de um campeonato, inclusive com a visualização das asas e das correntes térmicas, que simbolizam oportunidades invisíveis.

Desde cedo

Cavalcanti começou cedo a sentir o gosto pelos negócios. Aos 13 anos de idade, montou sua primeira empresa, a Iluminasom, que oferecia música para festas infantis. O negócio durou cinco anos e foi um grande aprendizado para o empresário. Posteriormente, fundou o GC-5 Assessoria Empresarial, que ainda hoje presta consultoria para corporações de médio e grande porte e, inclusive faz o planejamento de suas palestras. Além, é claro, da Megafly, que oferece vôos duplos no Rio de Janeiro.

Já a inserção no universo acadêmico se deve ao fato de sua família ser do meio e, por isso, desde muito jovem, ter freqüentado a FGV. Seu pai, Bianor Cavalcanti, foi diretor da FGV-EBAPE durante muitos anos. Transmitir e trocar conhecimento com alunos, aliás, é sua segunda grande paixão. Por isso, decidiu juntar as duas coisas: lecionar e, literalmente, voar.

 
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